FICÇÃO – “A Felicidade Mora Aqui” Homenagem aos 77Anos de Goiânia.

No dia 24 de outubro de 2010, a cidade de Goiânia, capital do estado de Goiás, localizado na região centro oeste do Brasil, comemora 77 anos. Tinha que escrever alguma coisa à título de homenagem pela passagem da data.

Só que havia um problema. Meu editor de texto. Simplesmesnte sumiu daminha área de trabalho. O prazo estava correndo. Estava preocupado. Sob pressão. E agora? Acho que escrevi algo no Facebook.

Logo, recebi uma mensagem. Não tive a paciência de sequer checar quem havia enviado. Foi aí que entrei em contato com Néscio. Em poucos instantes um sujeito com um capacete embaixo dos braços e uma enorme mochila nas costas se apresentou. Já foi adfentrando, dando bom dia, sorrindo , sem cerimônia alguma. Pareceu um sujeito bastante falante para a situação delicada em que me encontrava.

Mas tudo bem. Ainda restava a esperança.   Perguntei se ele conhecia Isaac Asimov, o escritor de ficção científica. Ele desconversou e desiste de tentar falar sobre literatura. Afinal, quem era esse cara. Só poderia ser um néscio. Mas pasmem. Este era seu verdadeiro nome.

Como assim? Uma pessoa chamada “Néscio”? Com certeza, que lhe registrou com este nome, nunca deveria ter buscado o sentido desta palavra no dicionário.   Resumindo, conheci a figura quando precisei de um técnico em informática para resolver um probleminha básico.

Felicidade ecologicamente correta

O editor de texto que sumiu da área de trabalho, por exemplo. Então, sem esquecer a pressão e a urgência, um amigo em comum, virtualmente, nos apresentou. Em , um primeiro momento, o cara da informática, se mostrou um perfeito profissional. Se ele for rápido ainda dá tempo de enviar a matéria, logo pensei.   “Não existe probleminha. Foi o que disse com extremo profissionalismo.

Às vezes recuava, para não transparecer arrogância, e se queixava do seu ofício. A reclamação era que todo mundo se aproximava com segundas intenções. Então, imitava os trejeitos daqueles que queriam se aproveitar do bom moço: “Néscio, passa lá em casa. Tô com um probleminha no meu notebook”. Desviei da indireta como se não fosse comigo.

_ Ocê tem um cafezinho?

Se não falha a memória, essa foi a primeira coisa que perguntou quando chegou em casa. Isso após o discurso de apresentação. Onde vendia a simpatia que não possuía. Depois do café servido passou a destilar o seu script. Será que age assim com todo mundo? Não quis valorizar, nem dar chance a essa pergunta que rondou minha cabeça naquele instante.

Em pouco menos de 5 minutos falou sobre futebol, política, religião e ainda deu seus palpites sobre economia de mercado e dicas de investimento na bolsa.   Então, diante do meu computador portátil, quis saber sobre seu antecessor.

 

_ “Quem dava a manutenção antes de mim?”

Logo após digerir os dados, sem piedade alguma, detonou o cidadão. No fundo, não percebi na hora, mas desqualificava a concorrência para enaltecer, automaticamente, seus serviços. Até então, tudo estava de acordo com o roteiro pré estabelecido. Inclusive,surgiu na mente aquela impressão: “Se todos fossem iguais à você”.

É. Mas com o passar do tempo, e a minha pressa, a perfeição sugerida foi, literalmente, desconstruída.   Abriu minha máquina e passou a conversar. Logo chamou à atenção as lorotas que mencionava. Poderiam ser até divertidas, mas não era o momento e estava com pressa. A irritação começou a circular em volta de mim. “Tem mais um cafezinho?”

Assim como minha paciência, ainda havia um restinho na garrafa térmica. Depois de um gole, caprichou na expressão facial, e elogiou genericamente o precioso líquido que havia ingerido.

Então, para aumentar meu desconforto, comentou sobre o suposto Matrix 4. “O Filme é excelente”, comentou. Não me contive. Isso é hoax. Boato. Papo furado. Não. Ele garantiu que não. Mencionou também um baixo assinado em que colocou seu nome, assim como um milhão de pessoas, exigindo que os estúdios de Hollywood, foi assim que se expressou,recontratassem Sam Raimi para mais uma sequência do aracnídeo da Marvel. Era fã do cara, mas não se lembrou de nenhum nome de um dos seus filmes.   Reclamou do calor.

“Tem mais um cafézinho?”

Disse que a cidade de Goiânia. Era realmente muito quente. Logo, me colocou a par do assunto. Era o aquecimento global. Explicou isso com a maior desenvoltura e calma do mundo. Parou de falar. Arqueou a sombracelha e disse que era por causa do desmatamento.

Cartaz da Construção de Goiânia

“Isso aqui antes era uma fazenda. Havia uma floresta. Então, desmataram, para erguer a cidade. O dono queria fazer pasto, criar boi. Inclusive, continuou, a cidade era para ser chamada de Boiânia. Mas na época, deu um risinho de deboche, era tempo da máquina de escrever. O escrivão cometeu um erro de datilografia. Aí ficou Goiânia mesmo.”

Não tinha noção algumada onde tinha retirado tal informação. O que consta, segundo meu levantamento, é que houve uma consulta feita por um jornal local e o nome vencedor teria sido “Petrônia”, uma clara homenagem ao seu fundador, Pedro Ludovico. Inclusive, durante seus primeiros anos a cidade não tinha um nome que só foi oficializado em 1942 com a transferência da capital da cidade de Goiás, antiga Vila Boa, para Goiânia.

Pedro Ludovico, Fundador de Goiânia

Mas o homem era uma matraca e não parava. Talvez fosse uma tática para deixar seu interlocutor sem ação. Passei a querer acreditar nisso quando comentou um incidente que haveria ocorrido com Roberto Carlos, nos anos 60, quando este veio se apresentar por essas bandas. Era tempo da jovem guarda e todo mundo sabia que o rei era um tremendo playboy. Gostava de tirar racha , apostar corridas pelas curvas da estrada de Santos. Fiquei com pé atrás.

Disse que o Roberto foi correr com seu calhambeque, “um carrão da época”, lá na praça Tamandaré. Mas se desentedeu com um cara de chapéu que lhe deu uma fechada. Um xingou o outro. O rei ficou exaltado e foi então que surgiu a expressão “fazenda asfaltada”.Na verdade, o terreno, em que a cidade foi erguida, foi cedidapor meio de doação de alguns fazendeiros locais.

Enfim, o tempo estava passando. Será que ainda conseguiria resgatar meus arquivos? Toda a pesquisa que havia levantado. Não lembrava nada. Todas minhas anatações. Assim, de cabeça, lembro que o médico Pedro Ludovico lançou a pedra fundamental da nova capital em 3 de outubro de 1933 em homenagem à revolução de 30. Nesta época, Al Capone,já estava cumprindo pena em Alcatraz por evasão fiscal. Hitler havia tomado o poder na Alemanha. O fascismo ganhava terreno com Franco e Salazar.

Um movimento eclético de design chamado Art Déco dominava a arquitetura. Assim, os primeiros prédios da nova capital, projetada por Atílio Correia Lima, assim como o traçado original, representavam bem o estilo em voga.

Monumento às 3 raças que ergueram Goiânia, localizada na Praça Cívica

Trabalhadores de várias partes do país, principalmente do norte e do nordeste, vieram ajudar na construção. Então, cortando minha linha de raciocínio, o celular de Néscio tocou. Um cliente cheio de reclamações. Foi o que aparentou. Os fragmentos daquela conversa telefônica mostrava que ele estava na defensiva. Afastei-me um pouco. Estava preocupado. Então, lembrei que havia feito algumas anotações sobre fatos curiosos da fundação de Goiânia em um caderninho.

Claude Levi Strauss

Uma visita ilustre que Goiânia recebeu em seus primeiros anos foi Lévi Strauss. O autor de “Tristes Trópicos” estava no Brasil como professor convidado da, recém inaugurada, Universidade de São Paulo que era, então, mantida pela elite local e pelo jornal O Estado de São Paulo.

O intelectual teve que obter autorização do governo federal para conhecer o interior do Brasil. No entanto, Vargas não tinha uma boa relação com os paulistas, devido ao confronto que houve em 1932.

O governo federal tinha certas restrições ao nome de Lévi Strauss. Alguns suspeitavam de suas relações com os comunistas. Ao mesmo tempo era visto como um funcionário das oligarquias paulistas, mantedoras da universidade que lecionava. Isso de uma certa forma constrangia o intelectual.   Após a ligação, Néscio, deve ter notado meus discos de vinil na prateleira.

Então, ainda estava buscando na memórias as anotações que havia feito, quando fui surpreendido pela pergunta: “Você gosta de Rock?”   Demorei um pouco para entrar na sua frequência. Balancei a cabeça afirmativamente. Ele, definitivamente, parecia ser um cara que não se deixava abater. Tomou um esporro, sem dúvida, mas era como se nada houvesse acontecido. Não tinha problemas de caráter. Se é que parecia ter um.

Fabrício Nobre, MQN, é um dos destaques da cena Rock de Goiânia

Enfim, logo começou a tecer elogios sobre Goiânia ser a capital do rock independente e que o maior festival do país acontecia todos os anos. Falava com desenvoltura. Pelo que entendi não utilizava a expessão “Noise” em inglês que sugeria algo como “barulho de Goiânia”. Referia-se ao jeito caipira de se pronunciar a primeira pessoal do plural. E sustentava isso com autoridade. Sacripanta.

A tecnologia estava a seu favor. Mas saquei que o espertinho colhia algumas informações superficiais pelo google e saía repetindo tudo que via , ouvia e lia como se fosse um papagaio. O seu senso crítico não tinha o bom senso de checar as fontes da informação. Aparentemente um tipico cidadão dos nossos dias. Fruto do meio. Mas isso era uma opinião pessoal. E quanto ao meu editor de textos.

Goiânia estava comemorando 77 anos e estava sendo enrolado. Já buscava uma desculpa, como o fato de que as informações sobre art déco ainda serviriam para ilustrar a matéria para o próximo aniversário. Mas , naquela altura do campeonato, alguém ainda se importava com minhas anotações?

O cara foi embora com o mesmo sorriso, além de uns trocados que haviam em meu bolso, e me deixou sem o editor de textos. Resolvi caminhar e esquecer. Quem sabe fique inspirado para escrever sobre o aniversário da capital de Goiás. Afinal, Goiânia, tem seus encantos,além de ser uma bela cidade, acolhedora, e cheia de flores.  A sensação que tenho é que a felicidade mora aqui.

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3 Comentários

  1. Sabrina

    Que ótimo, Pompeu!!
    Adorei!
    Foi ótimo pra arejar a cabeça num momento de estudo intenso.
    Dei altas gargalhadas!!!
    E esse Néscio, hein? Que néscio!!
    Além de antiético.
    O caderninho salvou a pátria.
    Noise é néscio! KKKKKK!!!

  2. Me orgulho desta Goiânia que, com 77 anos, se fez muito mais culturalmente enfervescente do que quando tinha 76!
    SUCESSO AO DESENVOLVIMENTO ARTÍSTICO DA CULTURA GOIANA!!!
    Goiano, agora, vai ao teatro, escuta boa música e aprecia artes plásticas e dança. Pode até serem poucos os que pagam por isso, mas isto é processo e já tivemos um bom começo.

    Sucesso a todos os goianos e goianienses!
    Abraço.
    Thiago Moura.
    ————————–
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  3. ivodeoliveira

    Ki legal!!!!

    o q é monstro?
    estranho

    mas valeu…..

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