Ficção – “NYX- A Magia da Noite” Capítulo III – “Noite Sinistra”

Noite Sinistra
(Boris de Pedra)

Já era mais de meia noite e no corredor que levava a ante sala do
estúdio estava vazio. Uma barata agonizava com as patas para o ar. Se
alguém estivesse ali talvez sentisse nojo daquele inseto.

No prédio,
onde funcionava a rádio, não havia quase ninguém. O programa que
estava no ar era o Noticiário Noturno. Era feito ao vivo. Por isso,
havia a necessidade que alguém redigisse algum texto se fosse preciso.
Uma notícia de última hora por exemplo. Para dar a ideia de que o
programa estava acontecendo naquele instante. Esse alguém era Blanche.

Blanche Richards era o seu nome. Escrevia textos sob encomenda.
Trabalhava como ghost writer. A pessoa que pagava pelos seus serviços
sempre assinava. Isso acabou virando sua fonte de renda.

O mágico
Houdini utilizou os serviços de ghost writer de H.P. Lovecraft. Ela, Blanche,
não tinha o que reclamar dos valores recebidos. Tinha o hábito de
vagar pela rádio durante as madrugadas.
Assim, se alguém estivesse
precisando de uma mensagem sabia onde poderia a encontrar.

Às vezes o locutor escalado para aquela jornada nem chegava a vê-la.
Entrava no estúdio e por lá ficava até a hora de ir embora. Tinha água
e uma garrafa térmica contendo café.

Após o noticiário noturno entrava
um programa gravado. Era do Padre Doveque. Tinha uma boa audiência. O
padre havia ficado famoso por ter participado de um reality show
quando ainda era seminarista. Sua participação despertou a atenção da
mídia. Ganhou o prêmio e levou a fama.
Anos depois, já ordenado padre,
chegou a gravar um disco com músicas de louvor. Isso manteve os
holofotes acesos. Mas, atualmente, tem atuado em outra área. O seu
programa era um reflexo imediato de sua nova atividade. Padre Doveque
praticava exorcismo.

Teve um caso que ficou famoso. Foi até televisionado. Altos indíces de
audiência. Uma criança, especificamente uma menina, havia sido
possuída por espíritos do mal. Devandra era o seu nome. Ele conseguiu
expulsá-los e a população foi ao delírio.

Durante o programa isto
sempre era lembrado subliminarmente. Blanche deixou a rádio antes que
o programa se iniciasse. Algo havia chamado sua atenção pela janela. A
visão que tinha era de um cemitério.
Percebeu uma movimentação de
vultos. O ar condicionado ligado impedia que identificasse qualquer
tipo de som. Aquilo despertou sua curiosidade. Resolveu conferir.

Vestiu sua capa preta, uma espécie de sobretudo com capuz, e se
encaminhou naquela direção. Chegando lá percebeu que alguma coisa
havia acontecido.

O portão estava aberto. Entrou. Não havia ninguém na
guarita. Havia um zumbido de um radinho de pilha. Alguém estivera ali.
O vento soprava forte e fazia barulho.

Ela caminhou por entre os
túmulos e se deparou com um pé de botina. Deveria pertencer a um
daqueles vultos que havia observado da janela da rádio. Continuou em
frente. Logo percebeu do que se tratava. Eram ladrões de túmulos.
Violadores de sepulturas.
Um bando de canalhas e cretinos. Mas algo
havia os assustados. O que poderia ter acontecido?
                           _ “Isto só pode ser coisa do sobrenatural”… foi isso que ouviu ao
voltar até a guarita.
Era a voz do Padre Doveque. A frequência
diminuiu e a pequena caixinha de plástico começou a chiar novamente.
Então, outro barulho ganhou destaque. Era o portão que estava rangendo
com a ação do vento. Mas ela não teve tempo para ficar pensando nisso.
Seguiu seus instintos. Alguma coisa lhe dizia para tirar isto a limpo.
Foi o que fez.

Respirou fundo e apertou o passo. A noite escura não parecia intimidar
seu ímpeto. Seguiu em passos firmes e seguros pelas sombras. A imagem
de Harry Houdini veio a sua cabeça. Ele costumava desmascarar aqueles
que diziam ter poderes paranormais.

Ele, Houdini, se infiltrava em sessões
mediúnicas e identificava os truques utilizados para ludibriar os mais
incautos. Talvez por isso acabou sendo calado. Mas a perspectiva da
morte não a abalava. Ela sentia que algo estava tentando revelar um
sinal.
                    _ “Será que tudo isso tem um significado?
Alguma coisa em comum?”.
Enquanto caminhava a passos rápidos questionava. O sumiço de Bernardo
Belisário, o investidor, aconteceu após um casamento celebrado pelo
Padre Doveque. Na noite anterior a igreja dele havia sido,
literalmente, saqueada.
               _ “Haveria alguma ligação?”.
 Foi então que se assustou com uma coruja que passou voando ao seu lado. Estava
absorvida naquele pensamento. Não havia nenhuma evidência plausível de
que os ladrões de arte sacra fossem aqueles assustados vultos do
cemitério. Mas de alguma forma estava associando estas possibilidades.

As ruas estavam desertas. Naquela hora os semáforos não ficavam nem
vermelho nem verde. Apenas piscavam a luz amarela. Mas isto também não
chamava sua atenção. Esta estava canalizada em uma única direção.

Um
mistério a absorvia e a escuridão era sua cúmplice. Aumentou a
velocidade dos seu passos. Após alguns minutos neste ritmo pode
perceber uma espécie de vulto se movendo. Não parecia ser alguém
assustado. O movimento era mais cadenciado.
Ou seja, não demonstrava estar afobado. Parecia relutante. Enfim, sua
intuição estava correta.

Pensou em correr. Possivelmente sua correria não surtiria efeito.
Poderia se fazer notar por aquele vulto distante. Não era essa sua
intenção. Preferiu continuar no mesmo ritmo.

Viu que o vulto
praticamente se arrastava. Assim, estava se aproximando cada vez mais
sem chamar atenção. Era como se sentisse a sensação do dever cumprido.
Se desligou do mundo ao seu redor.
Não se tocou que ainda estava sendo
observada pela coruja. Estava mais preocupada com outra criatura da
noite.

O vento assobiava uma canção gótica. Essa poderia ser uma licença
poética para se referir ao barulho que a ventania provocava. Blanche
seguia em passos firmes. Por um instante pensou tratar-se de um
morador de rua, um mendigo em busca de abrigo em meio àquela noite
sinistra.

Talvez, pelo fato de o vulto estar mais próximo do seu campo
de visão. Suas vestes aparentavam estar sujas como se fosse um
maltrapilho. A sua curiosidade ficou mais aguçada. Tentou controlar a
ansiedade. Não queria especular com a imaginação. Tinha que passar
isto a limpo. Foi então que recebeu o sinal.

Um pequeno papel foi levado em direção ao seu rosto. Instintivamente
levou a mão até a altura da cabeça para se desviar do que se revelou
ser um flyer, um panfleto de divulgação de um show de uma banda de
rock.

Era uma espécie de xerox e em preto e branco se destacava o nome
“Noite Macabra”. Apesar das letras estarem estilizadas conseguiu fazer
a leitura, assim como conseguiu identificar o local da apresentação
como sendo Limbo. Segundo aquelas informações o horário do evento
estava marcado para a meia noite.

Aquilo tudo começava a fazer sentido. Não sabia ainda o que isto
significava. Mas havia encontrado a chave para desvendar o mistério.
Entretanto, o vulto havia saído do seu campo de visão.

Desapareceu.
Mas ela sabia para onde teria ido. Tudo indicava que estava próxima do
lugar que estava acontecendo a apresentação. Era como se tivesse visto
com seus próprios olhos o suposto vulto entrando lá.
Foi com esta
certeza que seguiu em frente. Todavia, se descuidou um pouco e baixou
a guarda. Então, tomou um grande susto ao se deparar com um homem que
quase passou por cima dela. Não chegou a esbarrar. Mas apareceu de
surpresa. Não havia enviado nenhum aviso. Se esquivava pela noite como
uma assombração.


Além de tudo era um sujeito grosso. Nem se desculpou. Aparentemente
nem se importou ou chegou a perceber sua presença. Foi essa a
impressão que Melquíades causou. Realmente, ele parecia estar
apressado. Então, um portão foi aberto e ele entrou no Limbo.

Blanche
se refez do susto e agora sabia onde aquele vulto, que ela seguiu do
cemitério, havia entrado. Foi então que ao invés de ter saciado sua
curiosidade ficou ainda mais intrigada.

Havia algo de estranho com
aquele sujeito com o qual havia quase esbarrado. Ele parecia estar
sangrando. E aquele não era o lugar ideal para se ir quando estamos
sangrando. Foi isso que ela pensou ao ver uma poça de sangue no chão.

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