Ficção -“JOGUINHO ELETRÔNICO” por Carlos Pompeu

“Joguinho Eletrônico”

por Carlos Pompeu

 Em algum momento da existência todo mundo já deparou-se com uma afirmação semelhante àquela em que surgem como protagonistas o ovo e a galinha. Inconscientemente todos devem ligar os fatos, seguindo essa linha, poderemos chegar àquela que afirma que a arte imita a vida. Ou seria mais coerente dizer que é a vida que, morrendo de inveja, da arte faz uso da instituição do plágio?

Teses podem existir várias. Comprová-las dependeria muito das circunstâncias. A dúvida sempre pode ser alegada. Seja para confundir ou para tentar explicar. Ninguém está isento. Mas, este discurso só está sendo levantado porque trata-se de um caso aparentemente isolado. Quero dizer, diz respeito a outro acontecimento. Evidentemente triste, mas uma mera coincidência.

Interessante é saber que ambos os casos ocorreram na mesma cidade. A mídia jornalística não fez a ligação dos fatos. Não divulgou a relação sinistra que os envolvia. Efeito borboleta? Enfim,  bastante real e outro de natureza virtual. Talvez esta última denominação tornasse a situação ainda mais restrita, estando assim distante do grande olho dos noticiários. Uma relação subjetiva que de uma certa forma assemelhou-se com algo, diríamos,que estaria acontecendo em um plano mais prático de uma realidade mais sólida. Enquanto o outro dizia respeito ao universo dos videogames.

A indústria dos joguinhos eletrônicos passava por um ótimo momento. Atravessava o caminho dos tijolos amarelos. O verbo era expandir e faturar cada vez mais. Enfim, prosperidade. É verdade, que sempre existem alguns probleminhas, não tão relevantes, nada mais do que alguns obstáculos a serem superados. Talvez, um dos mais delicados, estejam ligados a questão dos direitos autorais. Mas assim mesmo girava muito capital neste tipo de negócio.

Uma nova modalidade havia, literalmente, invadido o mercado. Havia tomado de assalto todas as prateleiras das lojas especializadas e de grandes magazines. Se brincasse, devido a demanda, encontraria mesmo em uma loja de conveniência. Simplesmente este joguinho havia revolucionado o mercado dos jogos eletrônicos. Cá entre nós, não tratava de um jogo convencional. Do tipo que já estamos acostumados, talvez por isso, quem sabe, tenha adotado acima o termo “revolucionário”. Enfim, talvez por tratar de uma simulação da vida real.

Nada mais do que uma cópia. Ou seria melhor dizer que tratava-se de uma simulação da vida que nós acreditamos que estamos vivendo. Ou que acreditamos que seja a nossa realidade.

 Alguém já leu Philip K. Dick?

 

 Portanto, a partir daí, o jogador, ou seria melhor utilizar o termo cidadão? Enfim, por meio deste dispositivo aquele que participasse deste “passatempo” poderia viver uma espécie de vida onde controlaria seus atos, assim como o de outras pessoas de acordo com o que pudesse ser visualizado pela tela de um computador.

Talvez o segredo do seu sucesso esteja exatamente aí. No fato de manipular a vida alheia. Manipulação de Massa? Não. Talvez algo mais subjetivo. Algo em uma escala menor. Todavia , lembrando-nos de frases de efeito também consideradas ditos populares como ” a curiosidade matou o gato”… poderíamos fazer uma análise do que estaríamos propondo para discutir esta problemática dos joguinhos eletrônicos. Em um caso específico e isolado com este mesmo. Enfim, em todo caso, matutando um pouco, não sei se haveria lógica em expressar este pensamento.

 Em todo caso, prosseguindo, não sei se caberia utilizar uma expressão semelhante dentro deste contexto. Mas, já que estamos falando de uma experiência de vivenciar a vida alheia, às vezes estaríamos sujeitos à um sonho de Ícaro. Quem ? O filho de Dédalo. Mitologia grega. No resumo da ópera, tentar ser aquilo que de fato, atropelando a gramática do português correto, mas com a devida licença poética para favorecer a comunicação, seria como dizer fazer possível o que , aparentemente, é impossível.

Mas, sendo esta ação, fruto de um devaneio. De um vislumbre diante de uma possibildade real de querer fazer do impossível algo possível. Um caso típico de sedução. Onde a razão e as leis da Física são colocadas para escanteio em nome de um sonho. Entretanto, cabe ressaltar, que a vontade de ser aquilo que não se é já não nos traz mais o rótulo de proibido. Existem possibilidades. E o conteúdo deste frasco agora está ao alcance de suas mãos em uma prateleira de supermercado ou comércio similar.

A tecnologia trouxe essa nova possibilidade para dentro de nossas casas, de nossos lares, de nosso convívio social de cada dia. Ou seja, a possibilidade de sermos e de nos sentirmos como uma outra pessoa. Sentir a sensação alheia. Já imaginou algo desta natureza?

 Isto já está prometido. É incrível. Quem poderia imaginar ou mesmo prever algo desta dimensão? Mas ,voltando à recorrente mitologia, em um exercício de mera especulação intelectual, o que seria de Ícaro se voltasse a pisar os pés no chão após aquele imprudente e fatídico voo?

 Talvez mais um ditador de Creta? Cabe à você, caro leitor, no melhor estilo Machado de Assis, morder esta metáfora em forma de maça que ofereço para degustação em seu imaginário. Ou seria mais eficiente dizer uma maçã em forma de metáfora que nada mais é do que me referir à alguma coisa para querer falar de uma outra? Enfim, mas poderíamos lembrar que a tecnologia, apesar do seu canto de sereia, não conseguiu auxiliá-lo nem mesmo com um simulador de voo.

Imagine se houvesse esta possibilidade? Surtiria efeito? Se nem mesmo as palavras da razão, proferidas por Dédalo, puderam fazer sombra à sedução de romper os limites do possível, quiçá, um outro mecanismo ou ferramenta poderia aplacar à ilusão sedutora que se insinua diante da perspectiva de ir de encontro ao sol por meio de asas artificiais? Entretanto, essa mesma tecnologia, de última geração, já nos permite ter a sensação de ser outro em uma outra sensação.

Isso, realmente, mexe com a cabeça de qualquer um. Todas essas palavras lidas servem para ladrilhar o caminho que passo a sugerir a partir de agora. Hoje, com essa tecnologia inserida nos joguinhos eletrônicos, essas possibilidades pode ser uma atração a mais. São recursos para incrementar a nossa diversão. No plural mesmo. Assim, o jogador, poderá extravazar e vivenciar a adrenalina de praticar um assalto, por exemplo, ou algo que se praticado seria taxado de delito.

Ou seja por que não? Qual o problema de se praticar um crime se de fato não há crime?

Apenas uma situação lúdica onde se tem a sensação de estar fazendo algo errado. Mas tudo isso sendo feito no conforto do seu lar. Sem os perigos reais que uma ação desta natureza vil poderia provocar. Ou seja, estar dentro de uma perspectiva onde o crime compensa. Isto, com a garantia, de não estar praticando um crime de fato. Isto não quer dizer que não se possa cometer um crime por meio de um computador. Mas isto seria uma ação de um cracker, um pirata digital.

Afinal, bandidos virtuais não operam apenas na ficção, mas são tão comuns quanto um assalto ou um furto seguido de violência, o que caracterizaria um roubo. Pois o simples emprego da violência descaracteriza o furto. Mas dentro do universo do videogame oferecido pelo cara da loja não existe este perigo com implicações legais. Desde que você, em troca, pague o preço exigido pela mercadoria que abre as portas para esta possibilidade.

O fabricante também vai defender este ponto de vista. Na retaguarda haverá um exército que alegará que o jogo é lúdico. Mas não gostarão nem um pouco e utilizarão toda sua artilharia ao terem consciência que não estarão lucrando um centavo sequer com toda esta diversão. Ainda mais se a versão que possibilite esta simulação tiver sido baixada de uma cópia que estaria disponível na Internet.

Tanto que aquela cópia que rodava no computador daqueles meninos, que deveriam ter uns onze anos, era pirata. Ou, seja os direitos autorais estavam sendo violados. Talvez não tivesse adquirido de uma cara mal encarado, com barba por fazer, com olho de vidro, nem com perna de pau. Mas, enfim, tratava-se de uma cópia de um software, pois o game é um programa de computador que roda um jogo, que tinha sido baixado sem a devida autorização.

O que de uma certa forma configura uma contravenção para pegar leve e não adentrarmos em questões jurídicas. Ou seja, isso é o mesmo que dizer burlar os direitos autorais. Nada mais , nada menos do que uma questão, no mínimo, polêmica. Mas a coincidência com as trágicas cores foi que esta brincadeira de computador dos meninos acabou, de fato, acontecendo. Ou repercutindo além do mundo virtual.

Tudo indica que o que ocorreu tenha sido mera coincidência. Não existe nada que possa afirmar que uma ação tenha sido consequência de outra. Elocubrações filosóficas. Caso não estejam classificadas dentro deste contexto não haveria nada , do ponto de vista legal, que criasse um vínculo entre os casos que ainda serão narrados. Ou todo este relato não passaria de uma dissertação disfarçada de ficção?

Todavia, se de um lado temos alguns garotos pré adolescentes vidrados em um joguinho eletrônico . Do outro lado do ringue temos Chicletinho. Talvez seu personagem seja fruto das desigualdades sociais que nos abalam , mas da qual nos acostumamos e de uma certa forma, sem mea culpa,  já nos acomodamos em relação à tamanha injustiça que aceitamos como parte de nossa rotina. Enfim, Chicletinho iria tomar parte de um assalto. Estava escalado para jogar no time de Marcelinho Coisa Ruim.

 

 Enquanto isso, conforme o joguinho dos meninos, isto no mundo virtual, invadiam uma casa. Afinal, a ação do jogo seria similar àquela a ser praticada na vida real. Isto porque os meninos escolheram justamente o jogo que simulava a ação de um ladrão roubando uma casa. Diversão eletrônica de última geração.

Em todo caso, no mundo de concreto, Chicletinho e Coisa Ruim adentram como gatunos a residência de uma família sorteada na loteria do capeta.

No entanto, nenhum anjo celestial estava lá para defendê-os. Talvez por medo da violência urbana e outras maldades tenham se afastado da raça humana. Afinal, distorcendo Fernando Pessoa. nunca conheci um querubin que tivesse levado porrada.

Imagine o susto que o pessoal da casa levou ao se deparar com a dupla infernal de ladrões. Deveriam estar diante de uma televisão assistindo alguma mensagem, ou uma ordem para que consumissem determinado produto ou tipo de serviço. Algo corriqueiro na vida de um brasileiro. Os desajustes da sociedade civil e seus reflexos não os alcançaria naquela típica cena familiar. Todavia, apesar da distância dos holofotes da mídia, estariam sendo dizimados como tantos outro e a partir de então seriam parte de uma nova estatística.

Todos estavam apreensivos. Entravam em um mundo de agonia, angústia e pânico. Ainda mais que se julgavam seguros no conforto de seu lar. Invioláveis. Talvez não tivessem a consciência disso, provavelmente não. Apesar de tudo acreditavam no futuro da nação e deveriam viver sob a pálida sombra de uma esperança que lhes prometia a perspectiva de um mundo melhor.

No entanto, apesar de tudo, o espectro da morte estava naquele ambiente. As vibrações negativas ficaram impregnadas no ar. Gritos, desespero e medo. O ambiente estava pesado. Coisa Ruim pressentiu algo nefasto e solicitou calma ao parceiro que, por sua vez, abalado psicologicamente, aparentemente demonstrando excesso de nervosismo; suava muito. Não era um bom sinal.

Em outro ambiente, protegido de todos os males e longe das armas de fogo, os meninos jogavam o videogame que simulava um assalto armado à uma residência. Mas esta encenação acontecia apenas no computador. Empolgação é a palavra chave. Ainda mais que a situação era inusitada. Na simulação do computador, aquelas crianças, eram os ladrões. A mãe de um deles chama para o lanche. Eles não dão atenção pois estão concentrados naquela preciosa diversão.

De repente, o descuido de um deles. Algo rápido, um esbarrão sem maiores consequências .Parece que foi um toque no mouse. No canto esquerdo ou direito? Mas isso teria importância? Não sei. Ao certo é que havia acionado o comando de disparo. Enfim, algo que não estava programado. Um ato falho. Algo provocado sem querer. As armas carregadas estavam na mira. Foi sem querer. Mas , todavia, o disparo foi feito. A bala espatifou a cabeça de uma das crianças.

 

 _ Putz! Olha a merda que cê fez?

Gritaria geral. Diante do susto arregalou os olhos. Por uma terrível coincidência foi isso que ocorreu com Chicletinho. Talvez fosse o fato que estivesse nervoso, deve ter sido isso, ou quem sabe efeito do crack. Marcelinho Coisa Ruim talvez tivesse tido o mal pressentimento porque no fundo sabia que não poderia contar com um cara drogado nem mesmo para cometer um crime. Ele estava muito suado. A mão bastante úmida. Os dedos devem ter escorregado e sem querer acabou efetuando o disparo. Era uma automática. Só que não era videogame.

A bala, que penetrou o crânio, espirrou sangue e pedaços do cérebro da pequena cabeça para todos os lados. Desepero total. Dor profunda. Marcelinho baixou a cabeça e balançou negativamente a cabeça; Chicletinho ainda buscou auxílio no olhar do parceiro, mas não encontrou o que procurava. Queria dizer, mas não conseguia, expressar algo como se não tivesse culpa. Não foi esta minha intenção. Provavelmente teria dito algo assim.

Os meninos do videogame se assustaram também com aquele ato falho. Então , desligaram ao computador e saíram correndo ao encontro da voz da mãe, de um deles, que sinalizava que agora era hora do lanche. No entanto, a cena continua na vida real. Marcelinho sabe que não existe saída plausível.

Tinha que liquidar a família toda. Era a única forma de amenizar tamanha tragédia. A morte da criança também tinha mexido com sua cabeça. Não era justo deixar a família viva após testemunhar àquela terrível cena. Foi isso que fez. Os corpos ficaram estirados. Chicletinho estava chorando quando sentiu um tiro na perna. Outro certeiro na cabeça.

 

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