Ficção – CHICO PÓRVA E ESPOLETINHA. Escrito por Carlos Pompeu

 CHICO PÓRVA E ESPOLETINHA

 Carlos Pompeu

Tinha entrado recentemente para uma banda de rock chamada Os Plutônicos. Sou baixista e já estava entrosado com os outros manos do grupo. Sempre curti a performance deles no palco. Super maneiro. Também curtia muito o barulhão que faziam. Muito legal. Logo, estava tocando com os caras. Eram bastante entrosados com a galera, mas não faziam muitas apresentações.

Talvez por isso os ensaios fossem bastante concorridos. Não exageraria muito se chamasse os ensaios de festa. Pintava uma turma maior que os membros dos Plutônicos. Sempre havia uma gatinha mais chocante que a outra. Maneiro. Teve uma vez que fiquei enfeitiçado por uma. Havia até uma música da banda com seu nome que era Espoletinha.

 A letra dizia mais ou menos assim ( imagina um rockão pesado) em um tom bem berrado: “ Espoletinha, se você não é minha mina/não é de mais ninguém, meu bem, bengue,bengue/ três tiros de espoleta irão resolver/ essa mina é o capeta, podes crer/ vou manda-la para o inferno só pra ver o diabo na sua mão ferver/ ( aí nesta parte o rockão fica mais balada) … com seus encantos que são tantos, carinhos e carícias e muitas malícias “… (entra um grito e reinicia o rockão).

 Pois então, não preciso mencionar que meus olhos e atenção se voltaram para aquela mina. Hum, ela é bem gostosinha. Isso é. De boba ela não tem nada e logo percebeu meus olhares. Putz, eu saquei que ela correspondeu. Depois do ensaio já sabia o que iria fazer. Trocamos umas idéias antes de vazarmos do ensaio. Lembro que ela disse.

 _ Adoro os carinhas que tocam minha música. Você curtiu ?

E deu uma viradinha de ombro e uma piscada de olhos. Logo pensei está na minha. Além disso, era a música que mais gostava do repertório dos Plutônicos. Só que havia um detalhe que desconhecia e fazia com que minhas intenções não fossem tão ardentes. Não tinha noção alguma, nenhuma sobre aquela garota. Com certeza havia me chamado a atenção.

 Inclusive, tinha aceito o convite para acompanha-la até sua casa. Confesso que literalmente fui seduzido por seus olhares furtivos. Também sabia que era espoletinha mesmo.Imaginava. Não questionei o porque deste seu apelido. Nem passou pela minha cabeça. Eu juro. Mas foi aí que vacilei. Sabe de quem a Espoletinha era filha? Talvez tudo tivesse sido diferente se eu soubesse que era filha do Chico Pórva. Ai Jesus. Bom, para não causar mais espanto prefiro anunciar que meu nome é Virgílio.

Isso aí. Igual ao poeta da Roma antiga. Aquele que escreveu “Eneida”. Por coincidência este era o nome real da Espoletinha. Tempos depois tivemos um neném.O casal feliz: Virgílio e Eneida. Mas isto são outros quinhentos porque rolou uma treta esquisita àquele dia. 

 

II –

 Então, passo a relatar o que sucedeu. Estavam os dois no quarto dela que era uma suíte. Ela estava no banheiro e gritou. Queria chamar atenção, claro.A porta estava aberta. Ele entrou. Ela deixou cair o roupão e ficou nua diante seus olhos fascinados. Ele ficou paralisado até que ela o acolheu em seus braços. Como em um passe de mágica ele esqueceu de tudo. A água caiu sobre os corpos abraçados que estavam unidos por um caloroso e demorado beijo.

 A mais completa intimidade que pode haver entre um homem e uma mulher. Foi então que um som estridente quebrou a melodia de silêncio que refugiava a poesia dos jovens corpos nus em uma dança onírica. Enfim, uma ruptura brutal. Afastando a vibração de amor e tranqüilidade que reinava no ambiente. Uma jarra de vidro que caiu no chão e se espedaçou. Mais ou menos isso. Ambos estavam com os olhos fechados que logo se abriram para a nova realidade. Ele percebeu um brilho aterrorizante nos olhos dela. Em seguida ela empurrou o seu corpo e saiu do box do chuveiro.

Ele ficou sozinho embaixo da ducha de água quente. Ficou sem saber o que fazer. Desligou o chuveiro e se enrolou na primeira toalha que viu. Não sabia porque mas sentiu se reduzido. Era sua baixa estima. Então, ela voltou correndo com uma expressão transtornada no rosto. Ele ficou mais assustado ainda. Era apenas o início do pesadelo.

 Histérica ela gritou para que ele vestisse rapidamente sua roupa. Ah, também teria que se esconder. Ele pensou: “como assim ?”. Arriscou abrir a boca e dizer com a voz embargada.

_ O que está acontecendo?

 Levou um tapa na cara. As marcas dos dedos dela ficaram em seu rosto. Aí disse:

 _ Meu pai está chegando em cinco minutos !

 

 

Ele até pensou em se apresentar como o novo namorado. “Corta essa”, ela resmungou. E soltou alguns palavrões. Quando viu já havia vestido a sua roupa e a bronca da Espoletinha ainda ressoava em sua cabeça. Ela gritou de novo. Ele pensou que iria ficar surdo. Ela disse que o pai nunca poderia vê-lo ali. Ai Jesus ! _ Esconde e fica quietinho ! – Atordoado enfiou-se embaixo de uma cômoda antiga. Escutou o ronco dos motores. Eram mais de dois carros. Talvez três ou quatro. Logo ouviu uma doce voz de Espoletinha e de seu pai que vociferava algo. Haviam outras pessoas com eles. Pelo visto, não deveriam ser muito simpáticas. Barra pesada.Ficou ainda mais nervoso e começou a tremer de medo.

 E se o descobrissem escondido ali? Não ousou imaginar o que poderia lhe acontecer. A conversa deles girava em torno de uma cara que havia dado para trás. Falavam de traição. Foi aí que descobriu quem era o pai da gatinha que estava afim. Ficou curioso e arriscou sair de onde estava para ouvir o que falavam.

 _ Eu sou o Chico Pórva caralho! Quem esse merda ta pensando que é? Já passou da hora pôrra ! O que foi desta vez Genival ? Você sabe que te respeito muito. Não aceito isso de nenhum tipo. O que é ordenado tem que ser feito. Se não perde a confiança. E nosso trabalho é sério Genival.

_ Sim senhor – respondeu um apreensivo Genival

 _ Mas em você eu confio, boto minha mão no fogo ! Você sabe disso não é? 

Genival abaixou a cabeça e balançou afirmativamente.

E continuou:

 … vai lá e estoura os miolos deste cuzão ! Acaba logo com isso

 Genival ficou imóvel. Pórva percebeu algo grave nesta atitude de seu comparsa. Pórva não falou nada mas balançou a cabeça com desdém como se perguntasse. O que? Aí Genival o chamou de chefe. Sabia que toda vez que era chamado de chefe era uma senha para uma conversa perticular. Dispensou todos os presentes. Debandaram. Pelo barulho que faziam ao caminhar percebia-se que estavam armados até os dentes. Já sozinhos Chico Pórva disse:

_ Sabe que não sou de amarelar, não é? Não tem essa de passar a mão.

Genival respondeu:

 _ Só que desta vez ele mexeu com seu maior tesouro

Na hora Chico Pórva levantou as sobrancelhas e fez a maior cara de mau do mundo. Ainda no quarto, o baixista dos Plutônicos sabia que se referiam a Espoletinha. Na figura do pai ela sempre seria sua princesinha. O acesso de raiva de Chico Pórva durava uns 5 minutos. Durante este período quebrou móveis e espancou as portas. Genival aguardou consultando o tempo no relógio. Lá no fundo Chico Pórva sabia que sua linda menina não era virgem e nenhuma santinha.

 O que consolava sua visão machista de mundo era que agora era mais ou menos assim. Fazia vista grossa, porque Espoletinha aprontava. O que ainda não havia notado é que aquela criancinha cresceu e não contou com nenhum apoio do pai. Além do financeiro,é claro. Ele acreditava que poderia comprar a felicidade para sua filha. E esqueceu de que o que precisava era de uma figura paterna em sua vida. Coisa que nunca aconteceu. Aí em um belo dia aquela criança desabrochou-se na silhueta de uma formosa mulher. Apesar da pouca idade. Muitos pais tendem a tratar, pois imaginam assim, seus filhos como eternas crianças.

Genival ofereceu um drinque forte para aplacar a dor do seu chefe. Em seguida retirou do bolso interno do seu paletó um envelope. Pórva arregalou os olhos surpreendido.

 _ O que é isso ? – e apontou para o envelope que estava nas mãos de seu subordinado. Não esperava uma coisa assim.

Genival passou a comandar a ação durante aqueles instantes de perplexidade do seu chefinho. Retirou o que havia no envelope, ligou o a aparelho e logo surgiram algumas imagens. Ele também encheu o copo do patrão e pediu para que ele se sentasse. As imagens que surgiram foram do cara que havia dado pra trás, lembra? Fazendo sexo com sua filha. Virou o copo, que estava cheio, de uma vez. Olhou para Genival que encheu de novo e mais uma vez entornou tudo em um gole só. Soltou um imenso palavrão:

_ Filha da puu…ta. Eu vou capar o desgraçado! E soltou um grito que , de uma certa forma, pôs para fora toda a sua revolta.

 Em seguida buscou com os olhos por Espoletinha. A até então doce Eneida , mas agora seu pai tinha outra coisa em mente. Diante a aproximação de seu pai foi murchando. Ficou sem ação. O homem estava suando ódio. Retirou seu cinto e literalmente passou a chicotear Espoletinha. Lá no quarto o cara que tocava nos Plutônicos ficou revoltado com aquilo. Vale lembrar que ele não ficou sabendo do motivo. Enfim, nunca teve acesso àquelas imagens. Saiu correndo em direção de Espoletinha para ajuda-la. Era seu senso de fazer as coisas certas. Totalmente transtornado partiu para cima de Chico Pórva. Segurou as mãos que chicoteavam no ar.

Os olhos de Pórva transferiram todo o seu ódio para o plutônico. Foi aí que ele levou a maior surra do Chico Pórva. Genival teve que interceder a favor do rapaz que estava todo ensangüentado no chão. Espoletinha começou a gritar histericamente. A maior confusão. Muito tempo depois quando os ânimos tornaram-se tranqüilos todos os envolvidos foram conversar.

 Chico Pórva ficou com remorso e enchia a cara de uísque. Ofereceu uma dose para o rapaz espancado. Ele ficou receoso. Mas Genival balançou afirmativamente a cabeça e ele tomou de um gole só.

 _ Você que é o namorado da minha filha? – perguntou Pórva com aquele seu vozeirão Era tudo o que ele gostaria de ser.

Talvez a surra tivesse sido um ritual de iniciação. Mas gostou de ser chamado de namorado de Eneida. Por isso, balançou afirmativamente a cabeça. _ Eu dou a permissão para você namorar a Eneida sob uma condição, você aceita? É um servicinho que preciso que alguém faça pra mim, tudo bem? Com a boca ensanguentada e faltando alguns dentes esboçou um sorriso como se dissesse sim.

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